Quando eu deixei de olhar tão ansiosamente para o que me faltava e passei a olhar com gentileza para o que eu tinha, descobri que, de verdade, há muito mais a agradecer do que a pedir.
Mãe lê pensamentos, tem premonição, sonhos estranhos. Conhece cada choro, de gripe, de medo, entra sem bater, liga de madrugada, pede favor chato, palpita e implica com amigos, namorados, escolhas. Mãe dá roupa do corpo, tempo, dinheiro, conselho, cuidado, proteção. Mãe dá um jeito, dá nó, dá bronca, dá força. Mãe cura cólica, porre, tristeza, pânico noturno, medos. Espanta monstros, perigos. Mãe tem intuição e é messiânica: mãe salva. Mãe guarda tesouros, conta histórias e tem lembranças. Mãe é arquivo! Mãe exagera, exaure, extrapola. Mãe transborda, inunda, transcende.
(…) Eu precisava de alguém para estar ao meu lado quando ninguém pudesse estar. Alguém que olhasse e realmente me visse. Alguém sem cantos escuros, lugares distantes, alma vazia. Eu precisava de alguém sem pressa pra levantar, alguém que gostasse de sorrir, que brigasse e perdoasse sem precisar fingir. Alguém para andar na chuva, correr descalço… Alguém para dividir as moedas, usar o mesmo casaco. Alguém para esperar, para sentar do outro lado da mesa, para bagunçar a gaveta. Eu precisava de alguém que precisasse de mim, que criasse metáforas com os meus olhos, que dissesse que adora me ver sorrir. Alguém que abaixasse os olhos com qualquer elogio, que me emudecesse com qualquer prece. Eu precisava de alguém que aceitasse minha mão, meu abraço, alguém que precisasse chegar logo onde eu estou, que se incomodasse com a minha demora. Eu precisava de alguém que mesmo sabendo quem eu sou, aprendesse a buscar todo dia um jeito novo de se doar. Alguém que transforma tristeza em beleza, que decora a vida com momentos inesquecíveis. Eu precisava de alguém que vale a pena precisar.
(…) Se os humanos não ficarem constantemente utilizando seus lábios - pensou ele -, eles grudam e não abrem mais. Após pensar e observar por alguns meses, abandonou essa teoria em favor de outra: se eles não ficarem constantemente exercitando seus lábios - pensou ele -, seus cérebros começam a funcionar.
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Douglas Adams - “O Guia do Mochileiro das Galáxias”
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Já sorri te olhando de mil formas e me aconchegando no teu abraço ao fim do dia. Era o que eu precisava: abrigo. Era o que você tinha. E tudo sempre veio acompanhado dos meus pelos arrepiados, do meu coração batendo forte e da minha distração quando você falava muito. Foi assim que eu soube o quanto isso era forte. Aliás, o quanto isso é forte. Talvez você mude - de país e de jeito. Talvez a minha loucura te afaste. Talvez nos afastemos ao natural. Mas entre todos esses “talvez”, pode ser também que talvez tudo dure, perdure. Talvez a gente se ame mais do que os olhos andam dizendo.
Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente.